quarta-feira, 14 de setembro de 2011




side a
01 under a pedestal
02 admirable form of the imagination
03 an hour among the notorious
04 amazing variety of imperfectness
05 in this life

side b
06 poetry, music
07 go bankrupt
08 new impressions
09 to analyze our own bad ones
10 a furious sense of powerlessness

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Planigale ingrami

há sete coisas que não existem
todas elas são verdes
algumas são pequenas
outras ficam acordadas à noite
todas se encontram aqui dentro
tudo o que é diferente disso não sou eu.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Vida de peixe

Em mim ecoa uma voz de peixe
a muda superfície do mar irrevela
uma barbatana imensa de baleia de repente
um tapede de cardume cobre a areia
em segredo uma gloriosa tartaruga
marinha explora o nada
no mar nada a realidade do peixe
imerso onde a pedra arrota
a vida é um cardume multiforme
nela um polvo lento segue anônimo
completamente vivo.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Cecília foi a primeira a ir...

Nunca conseguimos entender por que as meninas faziam questão de ser maduras, nem por que sentiam tanta necessidade de elogiar umas às outras, mas às vezes, depois de um de nós ter lido em voz alta um longo trecho do diário, tínhamos que combater o desejo de nos abraçar ou de dizer uns aos outros como éramos bonitos. Sentimos o aprisionamento que é ser garota, e como isso torna a mente ativa e sonhadora, e como a gente acaba sabendo quais as cores que combinam entre si. Soubemos que as garotas são nossas gêmeas, que existíamos todos no espaço como animais de idêntica pele, e que elas sabiam tudo a nosso respeito embora nós não soubéssemos nada delas. Soubemos, afinal, que as garotas são na realidade mulheres disfarçadas que compreendem o amor e até mesmo a morte, e que a nossa tarefa era apenas gerar o barulho que parecia fasciná-las.

EUGENIDES, Jeffrey. As Virgens Suicidas. Rio de Janeiro: Rocco. p. 39. Tadução de Marina Colasanti.

quarta-feira, 3 de março de 2010

no campo...

no campo distande
noite do campo
aqui distante eu

aquém tudo diz-nos
temporal sem Chuva
tempo
ou qual dos
dois me turva?

desarte a andar
e anda, anda e anda
calma
não finda o dia
nem o fim do
dia é fim
é dia

e um morango tem
sabor de morango

se eu chovo um morango
na boca fruta chuva
foje um mosquito pela
janela, voa, voa
a fruta flutua
enquanto em chuva flua

choveu-me o
sabor da fruta

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Aquelas coisas dignas de contos fantásticos: o tornado levou ela

Há quem diga que a realidade só acontece enquanto narrativa (isso é um tema para um outro post). Penso nisso quando ouço uma história digna de um conto fantástico, dessas que podem até ter acontecido mas que você gosta de imaginá-las descritas longamente num livro, de maneira muito bela, ou de forma concisa, em uma única frase certeira, de forma igualmente admirável. O fato é que você não imagina a cena acontecendo contigo, mas entre as páginas de um livro de contos fantásticos.
            Minha mãe me contou uma notícia que ela leu no jornal outro dia, estávamos caminhando e ela falou: “uma mulher foi fotografar um tornado...” E continuou dizendo que de repente o tornado ficou rosa. Olhei para ela como quem pede um boa explicação para o fenômeno, depois de ter descoberto que tudo de tratava disso.
Quando alguém conta alguma coisa p’ra gente, no início a gente não tem muita certeza do que se trata, mas no final (geralmente) a gente descobre. Não nos damos conta de que não sabemos do que se trata, simplesmente continuamos ouvindo e, igualmente sem perceber, vamos fazendo antecipações que terminam a história do narrador. O que essa nossa história antecipa é somente o desfecho dela mesma, o desfecho enquanto desfecho, ou seja, um mero fim, algo que explique porque que aquela história está sendo contada p’ra gente (ou porque que ela virou notícia de jornal). Isso quer dizer que essa história inventada involuntariamente pela gente (ou por esse autômato que nos habita) não necessariamente coincidirá com a história verdadeira (seja lá o que for isso). Essa história é sempre previsível. Porque sempre achamos que a realidade é o resultado do casamento entre o provável e o crível, aquilo que esperamos. Acontece que a expectativa nos ensina a enquadrar o mundo dentro de uma forma prévia. Mas aí, como diz aquela triste (e brega) música do Gilbert O’Sullivan, reallity came around... E como essa mesma música segue dizendo: …And without so much, as a mere touch / Cut me into little pieces. A realidade aparece e despedaça nossas espectativas. Isso pode ser bom ou ruim. Na música, percebemos que é ruim. Mas a realidade pode nos surpreender de maneira positiva. E eu não estou dizendo isso porque consigo “ver o lado positivo das coisas”, mas porque é verdade. Só peço desculpas por não lembrar agora de uma música que exemplifique isso. Mas eu acho que dá para perceber isso na história do tornado, com seu desfecho surpreendente e digno de nota (ou de post, ou de conto fantástico).
Se começam a contar uma história que contém uma mulher que fotografa um tornado (e a gente sabe que é notícia de jornal) a gente tem a tendência a pensar que “o tornado levou ela”. Ou algo que seja digno de um tornado: destruir uma casa, arruinar uma família, empilhar sete carros em cima de uma árvore, enfim, existe uma lista infindável de coisas para um tornado fazer. A gente só não imagina um tornado ficando rosa. Então, quando ficamos sabendo dessa transformação, desconstruímos a imagem da vaca voando dentro do tornado daquela maneira Twister e nos damos conta de que, dessa vez, surpreendentemente, o tornado mudou de cor ao invés de por à baixo uma casa ou levantar um bovino nos ares.
            O tornado ficou rosa. Como? Porque? Hã? Havia passado por cima de uma plantação de beterraba. O fantástico não é o tornado levar ela (como a gente poderia pensar) o tornado é o fantástico ficar rosa (você entende o que quero dizer!).
            E viva as beterrabas: o tornado não levou ela! Só ficou... rosa.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Conto Dejaneiro

Tudo existia ali para ele ser feliz. Até os vizinhos antipáticos, que eram muito poucos, faziam parte de um conjunto de personagens, que conjuntamente a fatores aleatórios de sua vida formavam um panorama que ele não sabia se ousava atribuir a Deus ou ao Diabo.
Dejaneiro conseguia perceber a primeira vez que ficou bêbado, a primeira vez que subiu em um ônibus sozinho, a primeira vez que dormiu com uma mulher, tudo isso quando olhava para a lâmpada mais barata do prédio onde morava. Toda noite, quando se via sozinho na sala bem arrumada, teimava de encarar a lâmpada acessa. Lhe agradava poder apagar as coisas que existiam em volta da luz fixando o olhar na nela. Era daquelas lâmpadas que conseguiam deixar o ambiente com um ar de leite; as coisas ficavam brancas demais. Quando ela foi trocada pela lâmpada velha que havia queimado durante uma tempestade, a velha parecia amarela. Nunca havia parecido amarela até que foi substituída por outra que tão pouco pareceria mais branca se não tivesse sido colocada no lugar de uma amarela, mesmo que tenha sido assim desapercebidamente. Dejaneiro não pensava nisso, nem lembrava da existência de todas as coisas que tinha colocado na mesa, à sua frente; na frente dos olhos que só olhavam a luz.
“As coisas são impassíveis”, pensou sem se dar conta muito bem do que pensava. De repente percebeu sua falta de ligação com as coisas, e então tomou consciência de que pensava nelas de maneira ingênua. Para ele, esse era um problema com as coisas, ou com a impressão que recebia a partir do que elas disseminavam. Ele nutria sentimentos pelas coisas que não sabia. Pensar no modo parado com que os móveis simplesmente repousam sob a luz da sua sala ainda nas mesmas condições há sete semanas que mais pareciam ser sete anos, e os ornamentos das mobílias e modo como elas devem igualmente permanecer após sua ausência, absorvendo como um ímã a poeira paciente dos ares. Tudo faz parte de um ciclo, o ciclo da poeira dos tempos. Um grito no deserto espalha as areias quentes, metade de seus grãos parece derreter apaixonadamente na vontade do sol. Também os pássaros de fundo de loja. Há uma mãe fazendo uma careta engraçada para o filho no colo, que não ri mas se mexe dentro dos seus braços. O dono do cão grita com ele. Pensar no mais agudo do que toca as coisas não é em si como dizer em palavras o que se vê. Pois em cada palavra há uma solidão precária, uma velha saudosa de seu tempo de moça. Essa senhora entretém jovens inteligentes em festas de casa dizendo que andava de motocicleta na adolescência e que se fosse assim como você pararia de se preocupar. “Não se preocupe com os livros e as provas, o ímpeto é adolescente e desentranhável, eu sei, mas um dia vocês me entenderão, sem lembrarem de mim, e será tarde demais.” É preciso perder as entranhas. “Já viu como esses bolos são feitos?” e dizem a receita todinha e falam sobre como ficam uma delícia.
É difícil, mas um dia ele dá-se conta: pensar que as coisas são impassíveis não é pensar nisso e no som das notas que uma revelação pequena emana. O pensamento se distrai, e se se alcança aquilo que vive na impassibilidade daquilo que brutalmente é, é porque lembramos da moça na fila do supermercado. E reconhecemos as faces no ponto de ônibus.
A primeira vez que havia andado de ônibus sozinho, Dejaneiro sabia que poderia chegar a Amsterdam em menos de três minutos, e não havia nada de mais verdadeiro no mundo do que isso. Realmente poderia chegar a qualquer lugar num piscar de olhos.
A luz já ardia seus olhos e ele sabia que não daria para continuar o trabalho que havia prometido para si mesmo adiantar esta noite, agora tudo para onde olhava possuía um enorme ponto branco evanescente e dançante em seu centro misterioso, como o centro misterioso que há em tudo na vida. E aquele ponto imutável existente no centro de tudo quanto olhava o encarava sem que suas formas se mostrassem como normalmente se viam sem os astros nebulosos das lembranças. A sala poderia esperá-lo dormir por horas, por dias. Esperaria para sempre, que Dejaneiro acabaria por ele mesmo receber a poeira que chega pontual e religiosamente nas coisas que guardamos com carinho.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

“Janeiro tem temporais de Abril” – [Radiohead - 2+2=5]



“January has april's showers...” (Trecho da música 2+2=5, do Radiohead)


Como é que alguém sobrevive à isso? Não ao temporal de Janeiro (que é insuportavelmente de Abril), mas ao fato de que se diz que os temporais que vemos em Janeiro são de outro mês? É o anúncio de um outro tempo, um tempo não-anunciado. Não se pode dizer que tempo é esse, ele não se define de nenhuma (outra) forma. O que acontece nesses tempos? Quando Janeiro tem temporais de Abril? Só se pode dizer o que está dito, e é esse o tempo.

Penso no temporal. Talvez o tempo tenha se acelerado muito de alguma forma até que Janeiro alcançasse Abril, o temporal... Numa espécie de aceleração tão complexa que faz o tempo primeiro (Jan) ter características do tempo segundo (Abr).
Imagina uma pessoa que olha tão rápido pela janela que tem a sensação do ar puro três meses antes. Lembro  de um verso da Divina Comédia em que se descreve uma seta atingindo o alvo. Ela é tão rápida que o verso conta ao contrário, narrando primeiro que ela atinge o alvo, vai em direção a ele e salta da corda. Talvez a nomenclatura ou tudo o que imaginamos sobre os saberes astronômicos, e a imaginação decorrente de se saber coisas precisas matematicamente como na física e todas as leis invioláveis (são leis), digo, toda a imaginação que nos suscitam os saberes astronômicos, talvez eles nos façam prever que em Abril houve uma precipitação de um temporal que em Janeiro havia chegado com o atraso de uma chuva que já havia caído mas que demorara para nos atingir, como a luz das estrelas distantes, que já morreram mas que só agora podemos captar a sua luz. Ou talvez Janeiro esteja doente e apresentar temporais de um outro mês seja um sintoma típico da fisiologia da chuva. Também podemos pensar que virtualmente Abril tenha se desaguado, pela sagrada ordem do acaso, em Janeiro (nesse caso teríamos que ficar em silêncio e aprender a não especular nenhuma razão, para não perturbar o repouso daquilo que dorme em sentido profundo - e inapreensível).
            Uma outra coisa interessante que eu não posso deixar de notar é que Janeiro tem. Em inglês diz-se has; em português nós alternamos o uso do ter com possuir, que é mais formal (mais frequente na escrita). A gente diz que Sabrina tem um gato preto ou que ela possui um gato preto. Mas também dizemos que Rony tem medo de cobras (sei que na verdade ele tem medo de aranhas, mas é só um exemplo e eu quero falar das cobras). Ele possui o medo das cobras? Até dá para dizer isso, mas acho que fica um tanto inaceitável, acho que soa estranho; com certeza as pessoas escolheriam dizer que ele tem medo e não que ele possui. Tenho a tendência a achar que é o medo que possui ele, de maneira que dizer que ele possui medo soa falso como dizer que se espanta a cobra ao explicar para ela que o que se têm pode ser abandonado a qualquer instante. Seria mais adequado dizer "eu recebo o medo da cobra" ou "o medo me alcança pela cobra", ou algo mais preciso e menos automático. De qualquer forma, na frase, Janeiro tem, outra possibilidade é pensar que Janeiro não necessariamente tem temporais de Abril (e devo dizer que essa interpretação está disponível para mim por eu ser uma falante do português; no caso, em inglês, has não se alterna com alguma outra forma como acontece em português - assim imagino!), mas que ele simplesmente possui latentemente o temporal de outros tempos, como possibilidade. Tendo em vista minhas considerações sobre o verbo ter, ainda podemos interpretar que Janeiro é uma espécie de rei tirano que detém os temporais de Abril, e que Abril sente-se sozinho. Nesse caso, Janeiro é como Caim e Abril é como Abel, e a gente não pode deixar de ter uma pena danada do Abel. Abril morre nas mãos de Janeiro porque Janeiro não gostou que uma Graça tenha abençoado Abril com um temporal mais admirável que o dele. Então Janeiro rouba os temporais de Abril e Abril permanece seco como se não pudesse chorar sua perda.

As pessoas reparariam que o temporal que elas estão vendo em Janeiro é impróprio? Também tenho a tendência a achar que é tudo culpa do homem e de sua prepotência, que acha que pode controlar a Natureza, criando tecnologias cuja exacerbação se manifesta sintomaticamente em anomalias naturais. Assim, acaba que Janeiro tem temporais de Abril.
Agora, para terminar, ainda podemos dizer o seguinte: alguém, uma pessoa, um homem ou uma mulher, que esteja com insônia e não consiga dar jeito nisso, está memorando no temporal que cai, toda a sua vida e como ela simplesmente aconteceu (assim mesmo como as coisas acontecem, igual a tudo na vida), e então a lembrança de tudo é uma criação e isso traz para o presente um aspecto do passado que só se dá enquanto recordação, de modo que os temporais vistos por olhos sensíveis passam a ser temporais de Abril. Alguém que não seja amado por quem ama, alguém que sabe o que quer mas que não pode ter. Todos os temporais são estranhos para aqueles que se inclinam a reparar neles o que neles se dá singularmente. Lembro da bela construção da língua latina que diz que (não vou colocar em latim) "alguma coisa existe para alguém", há um mistério na preposição "para" (mas não vou discutir sobre isso). É o que quero dizer, talvez o temporal seja de Abril somente para aqueles para os quais os temporais existem num dado sentido. O temporal de Janeiro existe para mim enquanto temporal que é de Abril porque eu sei que quem eu amo está muito longe, como a distância que separa Janeiro de Abril (amar alguém aqui é um exemplo, eu poderia ter feito um aborto espontâneo depois de ter arrumado o quarto do bebê - igualmente os temporais seriam diabólicos). Não podemos dizer com certeza que são meses que pertencem ao mesmo ano. De repente estamos falando de Janeiro de 1997 e de Abril do ano anterior. Nesse caso, como na memória, ir para o futuro é lembrar o passado. Então os temporais até que podem encontrar seu mês de origem porque a precipitação é anulada pela inversão dos meses quando falamos de meses de anos diferentes.
O que é o temporal? O que é o mês? Não vou dizer que o temporal é um fenômeno, embora seja. Fenômeno é uma palavra muito bonita, não a descarto à toa. Acontece que eu quero algo mais visível e concreto, menos científico e abstrato, menos geral. O temporal é aquilo que vemos acontecer como chuva, som, relâmpago e trovoada. Mês, por seu lado, é o nome de damos para um período de tempo. Temos, então, dois tipos de "tempo". O tempo manifesto como fenômeno geológico e o tempo como experiência de algo que passa. Então seria o poder que tem o tempo como experiência na experiência das manifestações dos fenômenos da Terra.
Acho que prefiro a explicação que invoca o acaso. E aqui (em respeito a minha própria palavra - e ao acaso) o silêncio existe para mim.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Vamos conjeturar o que não existe! (o poder da conjunção condicional “se”)


Não sei como foi a tua infância, caro leitor do PIdD, mas a minha foi cheia de livrinhos de colorir. Se você também brincou muito de desenhar e colorir, deve lembrar daqueles livrinhos que têm a seção “Vamos colorir!” (como os almanaques da Turma da Mônica). Nelas, você encontra um desenho em preto e branco para se divertir pra valer com sua caixa de lápis-de-cor Faber-Castell de 36 cores tradicionais mais a caixa de 12 cores metálicas. Você tem pena de usar as cores metálicas porque elas podem acabar e você pode não achar outra caixa daquela em qualquer papelaria chulé; por outro lado, é uma preocupação bastante boba para uma criança. Essa é uma preocupação adulta demais, não querer gastar todos os lápis metálicos; qualquer criança de preocuparia com alguma coisa mais preocupante. Ou não.... De qualquer forma, as cores metálicas não podem ser usadas em demasia nos desenhos, não fica legal. Elas devem ser usadas nos detalhes. Não qualquer detalhe, só aqueles que merecem uma cor metálica. Eu adorava aquilo. Mas superei... Todo mundo supera a fase do “Vamos colorir!” substituindo o “colorir” por alguma outra coisa, assim: “Vamos (inclua aqui o seu passa-tempo preferido)!”.
Outro dia, lendo Uma Breve História do Tempo (HAWKING, 1988), tive exatamente a vontade de intitular um dos parágrafos de “Vamos Conjeturar o que Não Existe!”. Porque, né?! As possibilidades conjeturais estão aí para isso. Bora conjeturar o que não existe?
Então, acompanha comigo (e com o Dr. Hawking...):

“A grande diferença entre as idéias de Aristóteles e as de Galileu e Newton é que Aristóteles acreditava num dado estado de inércia, em que estariam todos os corpos se não tivessem sido atingidos por alguma força ou impulso. Particularmente ele acreditava que a Terra fosse fixa. Mas deriva das leis de Newton o conhecimento de que não há um padrão único de inércia. Pode-se dizer que o corpo A está parado e o corpo B está se movendo em velocidade constante em relação ao corpo A, da mesma forma que se pode afirmar que o corpo B está inerte e o corpo A em movimento. Por exemplo, se isolamos por um momento a rotação da Terra e sua órbita em torno do Sol, pode-se dizer que a Terra está inerte e que um trem sobre ela está viajando para o norte a 150 km por hora, ou que o trem está parado e a Terra se movendo para o sul na mesma velocidade. Se fizermos experimentos com corpos em movimento dentro do trem, todas as leis de Newton serão comprovadas. Por exemplo, ao se jogar pingue-pongue no trem, descobrir-se-á que a bola obedece às leis de Newton, exatamente como qualquer bola sobre uma mesa no chão firme. Assim, não há como se afirmar se é o trem ou a Terra que se desloca.”

Depois de pensar em um evento que ocorre em uma Terra inerte, toda uma realidade se mostra expandida. A conjetura da inércia da Terra me faz pensar no que mais de inexistente possa ser conjeturado e todas as possibilidades incalculáveis de combinações nas quais apenas um dos aspectos conjeturados seja modificado/substituído por um outro evento (im)possível diferente. Por exemplo, podemos pensar em todos esses eventos ocorrendo na Terra em movimento em torno do Sol ou em todos esses eventos ocorrendo na Terra inerte, e todas as diferenças (pequenas ou não) que poderiam decorrer daí. E a realidade é bem maior!
Mas isso tudo é brincadeira? Aqui coloca-se um problema: conjeturar o que não existe cria algo fora da realidade? Creio que não, o que se dá, se dá na realidade sempre, até mesmo as nossas conjeturas e os sonhos e todas as vezes em que pensamos no que é caso não fosse e no que não é caso fosse e tudo o que decorre de pensar nisso tendo em vista todo um Universo de possibilidades. A realidade é ultra-caleidoscópica. E é por isso que qualquer “História do Tempo” só pode ser “breve” (e é por isso que o título do livro do Hawking é genial). E vamos conjeturar o que não existe! (em 36 cores diferentes mais as metálicas - e aquelas nas quais sequer podemos pensar e que se dão apenas enquanto se pode pensar que não se pode pensar nelas).


Referência:

HAWKING, Stephen W. Uma breve História do Tempo, do Big Bang aos Buracos Negros. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Dedicado à Amaranta


Eles se compadecem do homem que sofre
Porque ele canta
Mas não se compadecem de Amaranta, que sofre,
Porque ela tece obstinada e silenciosamente

Teu sofrimento é maior, Amaranta, porque
Surdo, arde mudo dentro de um coração
Livre do movimento vingativo
Da música tocada pelos dedos brancos
Do amor egoísta

Teu sofrimento é maior, Amaranta, porque
Carrega nele a paciência periódica dos anos sem pausa
Sem pausa os anos,
Sem pausa teu duro sofrimento
Que a pequenos goles de acréscimo pelos anos cresce

Teu sofrimento é maior, Amaranta, porque
Tua solidão é tamanha que
As amizades tornam-se as melhores possíveis
E extrais delas o que podes extrair delas
E o que não podes extrair delas
Nelas deixas escapar um suspiro, por ti, que
Nunca suspira, e só permite te porem nas mãos
As ataduras que pela eternidade
Protegerão inutilmente a tua pele
Ultra-sensível, queimada
Pelo fogo que te consome

"Não ouves a bela música?"
"O que me importa?
Não a haveremos de ouvi-la nunca mais.
Deitarei sob uma árvore anciã
E nela também, eu sei, me deixarei
Futuramente, como tem de ser,
Iniciando nesse instante,
Ser carregada pelas formigas,
Com seu labor cotidiano incessante
Como uma longa prece abençoante
Irresistente, ante o irrefreável."